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21 de janeiro de 2020 - 03:34
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Além da lenda, a família lá de fora
17/09/2011 às 12:19 | Derlei Catarina De Luca - derlei.deluca@canalicara.com
A história desta família mistura-se a própria existência da cidade de Içara. Donde vieram, como vieram, quando vieram são respostas que se perderam no tempo. Documentos escritos não existiam, mas em 1880, Candido Silveira já era conhecido e casado com Alexandrina de Jesus.

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Moravam e viviam Lá fora. “Lá fora” era no atual Campestre que tem como nome oficial Campo Mãe Luzia. “Lá fora” podia ser qualquer lugar perto da Lagoa dos Esteves, lá onde caiu o aeroplano e onde morreu o piloto chamado Plínio. Por volta de 1900 Candido e Alexandrina tiveram uma filha registrada como Aníbia de Jesus. Quando adulta Aníbia se casou com Antonio Fortulino.

Em 1926 o casal teve uma filha batizada como Aderci Fortulino Silva. Temos ai uma característica do litoral içarense: Os nomes de família não têm continuidade. Candido Silveira tem uma filha batizada como Aníbia de Jesus que por sua vez tem uma filha batizada como Adércia Fortulino Silva que se casou com Pedro Silva e podia se chamar Adércia Silva da Silva. A partir dai os filhos usam o nome Silva.

Essa maneira de registrar os filhos não é encontrada em nenhum país europeu. Os árabes registram os filhos com continuidade do pré-nome. Mas aqui o nome de família não existe nos registros oficiais. Não tem lógica nenhuma. “Os sobrenomes mudaram com o tempo, mas muitas histórias eram contadas e uma dindinha, de nome Porcina, (dindinha equivale à tradução de avó) contava que era búlgara. Até hoje a família não tem certeza se era búlgara da Bulgária ou bugra de índio” diz dona Adércia, sorrindo e chupando laranja do seu sítio.

“Lá fora” a família dedicava-se a agricultura. Cultivavam cana de açúcar e tinham moinho de farinha de mandioca e cafezal. Eram o que se conhecia como “agricultores fortes” mas a vida era simples como de todos os demais. Vendiam a farinha para a família De Luca que exportava para Laguna e Alemanha. Vendiam também para o sr Procópio Lima que era o intendente.

Dona Adércia manteve na memória as músicas cantadas naqueles tempos: “Eu tava na peneira, eu tava peneirando, eu tava no namoro, eu tava namorando. A farinhada lá na terra do Teixeira. Namorei uma garota. Nunca vi tão feiticeira. Era uma família bem divertida”.

A terra do Teixeira era Lombas Pedreira, caminho para a Praia do Rincão. A família era forte, mas a vida era dura, nada a ver com as facilidades de hoje. As mulheres ganhavam os filhos sozinhas e Deus. Não havia médicos nem comprimidos. Só remédio de erva. A alimentação era na base de peixe, carne e leite. A rosca de polvilho era amassada na gamela de madeira. O alguidar de barro era para lavar a louça e bater os bolos. A mistura do pão era somente a puína. O pão de milho era envolvido na folha de bananeira e assada na brasa. No café da manhã comia-se paçoca de amendoim e café preto.

Outra característica interessante desta família é a pratica da Coberta D´Alma. Costume típico das populações litorâneas do município que se perde no tempo. Não sabemos ainda de onde vem. Sabemos de onde não vem. Não é costume europeu nem açoriano nem indígena. Na década de 60 a família estabeleceu-se no centro de Içara, mas manteve o sitio “lá fora” onde os netos se divertem nos finais de semana, colocando casinhas para passarinho, andando a cavalo e buscando doces laranjas no quintal sem qualquer vestígio de agrotóxico.
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