Canal Içara

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21 de agosto de 2019 - 10:48
Cotidiano »
Onde foi que o IRC errou?
14/05/2007 às 10:50 | Lucas Lemos | jornalagoraonline.com.br
Mania entre as pessoas que tinham acesso a internet de 1994 até o ano 2000, os programas de bate-papo de Internet Relay Chat ou Chat de Realidade Virtual (IRC), dominavam a rede mundial de computadores.

A tecnologia foi desenvolvida para a troca de mensagens instantâneas em um mundo onde não existia o ICQ e nem o MSN. Tratava-se de servidores de bate-papo interligados entre si, que formavam redes de comunicação instantânea, disponíveis para acesso dos internautas através dos chamados clientes de IRC, como o mIRC. Em cima das versões deste programa, eram desenvolvidas novas funções, cores, formatos e scripts como o Scoop, Cyber, Power Puff e o Ninja.

Entre as regiões do Brasil com o maior número de utilizadores na época de glória do IRC, está o sul, região considerada uma das mais desenvolvidas no país, e que tinha um grande número de pessoas conectadas na época. Em vez de nomes, os usuários utilizavam pseudônimos (nicks) e em alguns casos inventavam identidades fictícias, encarnando verdadeiros personagens virtuais. A identidade ficava em sigilo, a não ser, que a pessoa se identificasse, como acontecia nas salas de bate-papo de Içara: #içara, #ccr-sc, #ccr e #caj [ambas identificadas com sustenido (#), significando que são canais de IRC].

Mesmo com conexão lenta, em que comemorava-se quando se conseguia um link de 56 kilobits por segundo (Kbps), era deste modo que muitas pessoas se comunicavam em Içara. Passava da meia noite de sexta-feira, quando a ligação para internet ficava mais barata, os maníacos pelo IRC entravam afoitos em busca de companhia. Alguns viravam a madrugada e permaneciam nas salas de chat para fazer novas amizades ou manter o contato com as que já se tinha. “Não tínhas muita opção de comunicação na internet, por isso utilizava a rede para conversar com as pessoas no Brasil”, revela Fernando Cardoso da Silveira, que morou nos Estados Unidos até 2001.

Além de comunicar-se com outras pessoas, games também aconteciam on-line. Jogos de perguntas, e até disputa de digitação aconteciam nos finais de semana. Na maior sala de bate-papo relacionada a Içara, o Canal #Içara, reuniam-se cerca de 40 pessoas, com picos, nos horários onde a conexão custava mais barata, de até 150 usuários on-line. Além do bate-papo coletivo, era possível ter conversas particulares com os usuários que estavam no canal.

A decadência da popularidade deste tipo de chat, no sul do Brasil, foi devido a brigas entre os servidores da Brasirc, rede mais utilizada em Santa Catarina e concorrente direta da Brasnet, maior rede do país. Como uma rede era formada pela ligação de um servidor ao outro, uma empresa que administrava um dos servers da Brasirc se isolou. Fato que rachou a rede e deixou muitos usuários perdidos, pois apesar de terem o mesmo nome, formara-se duas redes distintas. O servidor isolado solicitou a permanência do nome da rede, e após muita confusão o pedido foi aceito pela maioria dos operadores e administradores do sistema (IRCops). Isto, somado a uma onda de ataques para derrubar a rede e desestruturá-la, diminuiu o número de usuários do IRC.

Uma nova rede então foi formada, a Virtualife, que modernizou o sistema de chat ao implantar novas ferramentas de proteção a ataques e ampliação da segurança os usuários. Mesmo com as novidades da nova rede, o IRC já havia perdido muito usuários.
Conforme um dos fundadores de uma das salas mais antigas da cidade, o Canal #Içara, Leandro Martins Cardoso, “a divisão da rede Brasirc foi também uma divisão de eras. Antes dos problemas com a rede, o IRC predominava a comunicação através da internet. Após isto, o MSN passou a ser o programa mais utilizado para este fim”.

Atualmente sobrevivem, ainda que com poucos usuários, a rede Brasnet e a Virtualife, que em 2006 se juntou a outras pequenas redes do país para ampliar o número de acessos, que comparados ao período de 1994 a 2000, ainda é muito pequeno. “Para conversar utilizo o MSN. Entro somente em uma rede de IRC para conseguir senha de sites pornôs”, declara um internauta mais “safadinho”, que preferiu não se identificar.
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