Economia | 27/04/2026 | 12:02
Andreia Limas: Inflação, deflação, recessão. É possível encontrar o equilíbrio?
Em um cenário perfeito, a inflação é controlada, os juros têm taxas mínimas e o consumo é equilibrado, mas a economia brasileira está muito longe disso
Andreia Limas - andreia.limas@canalicara.com
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Abro a coluna de hoje propondo o desafio de imaginarmos um cenário perfeito para a economia. Comecemos pela inflação. Quando está negativa, ou seja, há deflação, é possível que os preços tenham baixado porque a procura diminuiu. Se a atividade econômica encolher demais, temos a recessão, o que não é bom para ninguém.
Por outro lado, inflação em alta significa consumo descontrolado ou, o que é bem mais comum, uma série de fatores internos e externos que elevam os preços de bens e serviços. Então, partimos da premissa de que o ideal seria ter uma inflação controlada.
Estando a inflação dentro da meta projetada, não há por que o Banco Central manter a taxa básica de juros elevada, medida sempre tomada para frear o consumo, mas que acaba encarecendo o crédito e inibindo investimentos.
Desenhado o cenário perfeito, percebemos o quanto a economia brasileira está longe de alcançá-lo e nem ao menos sabemos se é possível chegar lá.
Juros
Nesta semana ocorre mais uma reunião do Copom para definir a taxa Selic. A expectativa do mercado é que se mantenha o corte gradual de 0,25 ponto percentual na taxa, estabelecida em 14,75% ao ano na reunião anterior, quando houve a primeira redução após nove meses no patamar de 15%, o mais alto da história.
Considerações
Ao reduzir a taxa, o Copom assinalou que “Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”.
Também anotou que reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações sobre os conflitos no Oriente Médio e seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços.
Inflação
Resta saber se a redução gradual será mantida diante da inflação em nova alta. Em março, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi a 0,88%, superando em 0,18 ponto percentual o índice de fevereiro (0,70%). O resultado decorre do aumento de preços dos grupos Transportes e Alimentação e bebidas que, juntos, responderam por 76% do IPCA no mês.
Acumulado
No ano, o IPCA acumula alta de 1,92% e, nos últimos 12 meses, de 4,14%, acima dos 3,81% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em março do ano passado, o IPCA foi de 0,56%.
A meta de inflação para 2026, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), é de 3,0%, com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual, permitindo uma variação entre 1,5% e 4,5%.
Reflexos
O longo período de juros em patamares elevados pode ter contribuído para não deixar a inflação brasileira disparar, mas também cobrou seu preço. O encarecimento do crédito desestimulou as empresas a entrarem em financiamentos e a promoverem investimentos que poderiam resultar em aumento da produção, geração de emprego e renda, desacelerando o crescimento econômico.
Para as famílias, significou também a redução do poder de compra, sobretudo de itens adquiridos de forma parcelada. E não foram poucos aqueles que contraíram dívidas impagáveis, diante de crédito a taxas de juros exorbitantes.
Endividamento
Não à toa, vivemos o recorde de endividamento, como já tratamos por aqui. Para se ter uma ideia, dados do Banco Central, relativos a janeiro, mostram que as dívidas com bancos representam 49,7% do que os brasileiros ganham em um ano. A cada mês, 29,3% da renda das famílias é comprometida com pagamentos de juros e amortizações dessas dívidas.
Desenrola 2.0
Diante desse cenário, o Governo Federal deve lançar nesta semana o Desenrola 2.0, um conjunto de medidas que visa reduzir o endividamento em todo o país, como o uso de parte do FGTS para a quitação de dívidas, renegociação com descontos significativos e substituição por crédito mais barato.
Desconfiança
Mas a proposta é recebida com certa desconfiança quanto à sua efetividade. E isso até se justifica pelo precedente. Afinal, antes de chegarmos ao endividamento recorde, outros dispositivos já haviam sido criados para reduzir as dívidas, a exemplo do próprio Desenrola, voltado a famílias de baixa renda com dívidas negativadas de 2019 a 2022.
Ao todo, o programa envolveu 14,8 milhões de pessoas em 24,2 milhões de operações de crédito que, juntas, somavam R$ 53,2 bilhões em inadimplência. No entanto, segundo dados do BC, até fevereiro desde ano o estoque dos calotes na pessoa física cresceu R$ 61 bilhões – eram R$ 171,4 bilhões em operações de crédito com atrasos superiores a 90 dias nos pagamentos.
De olho
Vamos ter que esperar para ver na prática como será desta vez. Enquanto isso, nesta semana vamos ficar de olho tanto na decisão do Copom quanto no anúncio do Desenrola 2.0, esse previsto para sexta-feira, 1º de maio, Dia do Trabalho.


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