Canal Içara

Canal Içara

16 de julho de 2019 - 23:16
Cotidiano »
Crônica: Mamãe, eu também sou adotada
15/03/2019 às 07:33 | Simone Luiz Cândido
Fui convidada para uma entrevista na Rádio Eldorado de Criciúma e um ouvinte do programa Eldorado Comportamento - do Silmar Vieira - havia pedido informações sobre adoção. Dessa vez minha filha Naila, de nove anos, que chegou para nós com apenas três dias iria comigo. Desde seus três anos começaram as conversas sobre adoção, íamos conversando da forma que ela fosse entendendo como chegou até nós. Minha outra filha, Naiane, de seis anos, iria ficar com a avó. Eis que ela cruza os braços indignada e diz: "Mamãe, tu não sabes que eu também sou adotada? Foi Jesus que me mandou para tua barriga pra ti me adotar".

Olhei e sorri para ela e disse: "Sim meu amor tu também foste adotada, caso contrário não te tornarias nossa filha”. Ela continuou tentando me convencer a participar da entrevista, pois para ela ser adotada é algo tão bom e especial que ela também queria ir à entrevista. Alguns dos questionamentos dela são por que a mana iria participar e ela não. Tal é o afeto entre a família que elas não veem diferença nenhuma no amor que temos por nossas filhas.

Luiz Schettini Filho costuma dizer que todos os filhos precisam ser adotados. Sejam eles biológicos ou não. O Amor precisa nascer para que cada filho se sinta realmente filho. Naiane aprendeu que a grande lição desse lindo verbo adotar vem do latim adoptare, que significa escolher, perfilhar, dar o seu nome a, optar, ajuntar, escolher, desejar.

Se nós não acolhermos nossos filhos nascidos. Tanto é que muitas crianças são destituídas do poder familiar e são adotadas por outras famílias que as amam, cuidam com muito amor transformando assim suas vidas. Após serem adotadas é que realmente se tornam filhos com todas as propriedades e méritos que precisam. O fato é que para que muitos possam compreender as lições que o verbo adotar se faz necessário começarmos desde muito pequenos.

Adotar não significa caridade ou simplesmente preencher vazios existenciais. Somos famílias como qualquer família pode ser. Muda somente a forma que nossos filhos chegaram até nós. E se cada um deles tem personalidades diferentes, apenas direi que são pessoas diferentes. Tenho cinco irmãos biológicos e cada um trás consigo suas peculiaridades. A genética jamais irá fazer uma família deixar de ser família.

Família é onde existe amor, onde todos se unem, repensando suas atitudes, mudando se necessário for, mas mesmo assim haverá o abraço, o perdão, estar unidos de coração. Por isso lutamos todos os dias para que nossas famílias sejam reconhecidas. E que ninguém mais nos pergunte se são nossos filhos de verdade. Cada um de nós pode sim fazer essa diferença levando a cultura da adoção por onde passarmos. Não cabe a ninguém julgar de que forma uma família é constituída. O amor precisa falar mais alto.

Conheci muitas famílias através dos grupos de apoio à adoção, muitas configurações diferentes, no entanto, todas as que conheci são fundamentadas no amor pelos seus filhos e filhas. Alguns adotam três crianças ou mais, com problemas de saúde, com algum tipo de deficiência, alguma síndrome, adolescentes. Essas adoções são as mais difíceis. As crianças que não são preferidas pelos adotantes geralmente são adotadas por famílias que se formam sem preconceitos.

Nós dos grupos de apoio à adoção lutamos por um mundo com mais amor, mais adoções necessárias, pois muitas crianças maiores com ou sem irmãos precisam de famílias, que os amem. De nada adianta quem está habilitado reclamar de “BUROCRACIA” se o seu perfil for apenas crianças pequenas que a maioria deseja adotar enquanto existem as maiores que aguardam por pais amorosos.

Nesses últimos anos com nosso trabalho do Geaai acompanhamos algumas adoções de crianças maiores. São famílias que se formam crianças e adolescentes que realizam o sonho de um novo recomeço. Seguimos informando e mostrando que adoções de crianças maiores também dão certo.

Vale lembrar que o perfil deve caber no coração, vendo outras famílias com seus filhos maiores nos faz ver se cabe ou não para cada um de nós. Como diz minha pequena Naiane eu também sou adotada. E é esse sentimento de amor que queremos passar quando se fala em adoção. E que vença o amor para que mais famílias sejam felizes e realizadas com seus filhos.
Simone Luiz Cândido é voluntária na causa adoção de crianças e adolescentes; já participou de três antologias com suas crônicas, além disso, ama escrever reflexões sobre a vida cotidiana, eternidade, amor e convivência.
Participe também com seus comentários

últimas notícias
notícias mais lidas