Cotidiano | 24/03/2026 | 12:37
Surfista e engenheiro desenvolve prancha baseada em ciência durante mestrado na Unesc
Mateus Salazar uniu paixão pelo surf com a formação acadêmica ao transformar o hobby em objeto de pesquisa científica
Redação
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O surfista e engenheiro Mateus Salazar transformou uma pergunta comum entre praticantes do esporte em pesquisa científica. Como resultado do mestrado no Programa de Pós-graduação em Ciência e Engenharia de Materiais (PPGCEM) da Unesc, ele desenvolveu um protótipo de prancha baseado em parâmetros mecânicos e estruturais estudados ao longo de dois anos de pesquisa.
Em 2023, ser pesquisador não era uma hipótese para Mateus Salazar, então estudante do curso de Engenharia Mecânica da Unesc. Na época, cursando a reta final da graduação, ele vislumbrou a oportunidade por meio de um convite para integrar um projeto de pesquisa que estudaria o tema que já fazia parte de sua vida há muito tempo: o surf. Seria possível unir o hobby com uma chance de alavancar a carreira de engenheiro? Sim. E a experiência seria ainda melhor que o imaginado.
O projeto ganhou forma junto ao professor e orientador Matheus Vinicius Gregory Zimmermann, do Grupo de Pesquisa Ciência e Engenharia de Polímeros (Cepol). A parceria uniu o interesse do docente em estudar o tema com a experiência prática do estudante no surf.
Da proposta feita em sala de aula até o aceite do convite, o tempo foi de apenas alguns minutos. De lá para cá, no entanto, passaram-se dois anos dedicados com intensidade aos estudos, que lhe rendeu, neste início de 2026, o título de mestre. "A ideia logo me chamou muito a atenção. Identifiquei o convite como uma boa proposta de unir o útil ao agradável, de estudar o que eu gosto, fazer o mestrado, contribuir para a minha formação e para a ciência nesse esporte que faz parte da minha vida", comenta.
Como resultado da pesquisa realizada no Programa de Pós-graduação em Ciência e Engenharia de Materiais (PPGCEM) da Unesc, além do trabalho acadêmico de dissertação, Mateus desenvolveu a própria prancha a partir daquilo que, junto ao orientador, estudou sobre os parâmetros e materiais a serem utilizados. Para ele, o resultado surpreendeu positivamente.
"Estou muito feliz com essa conquista. O meio acadêmico abre muitas portas, nos possibilita estudar o funcionamento da área de interesse e documentar para contribuir com as próximas pesquisas, ou seja, outras pessoas podem ler esse estudo que nós fizemos e contribuir também daqui para frente. Isso auxilia não só na nossa evolução pessoal e profissional, mas também da área no geral", avalia.
O protótipo em si, para o orientador da pesquisa, é um grande diferencial e demonstra a materialização do trabalho acadêmico, mas o principal legado do estudo é a própria evolução do estudante e a contribuição científica para a área. "Nosso papel central como professor orientador e nossa retribuição como pesquisador é inspirar novos profissionais à pesquisa. O mais importante, para mim, é o quanto ele cresceu e se apoderou do assunto nesses dois anos, contribuindo para a ciência nessa área. Isso é o principal que o PPGCEM pode entregar, uma formação de mão de obra qualificada com olhar voltado à aplicação prática da ciência", garante.
O desejo, conforme o professor, é seguir evoluindo no estudo. "O resultado foi positivo, mas não consideramos a investigação concluída. É um tema interessante que tem muito a ser estudado para conseguir avançar", comenta o professor, que pontua a ideia de monitoramento de propriedades da prancha em tempo real como um dos próximos passos na pesquisa.
Contribuição científica
A pesquisa, para a reitora em exercício da Unesc, Gisele Silveira Coelho Lopes, é feita assim: um passo de cada vez, com contribuições feitas a muitas mãos. "Esse é um exemplo claro de como a ciência aplicada pode nascer de situações do cotidiano e gerar inovação. A Universidade tem esse papel: estimular ideias, apoiar pesquisas e formar profissionais capazes de colaborar com diferentes cenários", avalia.
Acompanhar de perto as contribuições feitas por pesquisadores da Universidade, conforme a secretária de Estado da Educação e reitora licenciada, Luciane Bisognin Ceretta, é de grande significado e serve como combustível para seguir trabalhando em nome da ciência e da educação. "Seja na evolução do esporte, no desenvolvimento de soluções inovadoras para processos, nos avanços na saúde ou em tantas outras áreas, a pesquisa acadêmica tem papel fundamental na melhoria da qualidade de vida e no desenvolvimento da sociedade. Além disso, contribui para a formação de novos pesquisadores, comprometidos em transformar realidades. Trata-se de um trabalho de valor imensurável", destaca Luciane.
Pesquisa sólida e aplicada
Como exige o universo científico, tudo se iniciou com uma base sólida, revisão dos estudos acadêmicos já realizados em torno do assunto e conhecimentos técnicos sobre a história, evolução e materiais envolvidos na construção de pranchas.
Conforme o novo mestre em Ciência e Engenharia de Materiais, foram meses buscando materiais acadêmicos, trocando ideias, conectando-se a outros colegas pelo mundo: tudo para contribuir academicamente para o cenário que tem nas ondas o seu elemento central.
Flutuabilidade, volume, peso, resistência, curvatura, desenho e bordas. Tudo isso precisava ser analisado. "Após a fase inicial de estudo dos materiais, análise do que já existia sobre o assunto, começamos a colocar a mão na massa, buscando entender como funciona o comportamento da prancha, como as mudanças de materiais, no aspecto mecânico, poderiam refletir na água, resultando nesse projeto final", recorda.
Como resultado da pesquisa, o projeto buscou transformar percepções comuns entre surfistas em parâmetros científicos mensuráveis, capazes de orientar a construção de pranchas de forma mais precisa. "A partir da análise de diferentes materiais e características estruturais, o estudo procurou estabelecer relações entre o desempenho da prancha, o perfil do surfista e o tipo de onda em que ela será utilizada. A proposta foi aproximar o conhecimento prático de quem surfa e de quem fabrica pranchas da engenharia e da ciência dos materiais, contribuindo para escolhas mais assertivas na combinação de materiais e no desenvolvimento de pranchas personalizadas", explica o orientador.
Desafio transformado em pesquisa
"Certo dia, há aproximadamente quatro anos, um estudante em sala de aula me questionou sobre o motivo de uma prancha de determinado material ser melhor que outra e aquilo me intrigou. Eu não sabia a resposta, mas me comprometi em buscá-la e a partir daí fiquei com esse desejo de estudar sobre os materiais próprios para tal finalidade. Foi com a chegada do Mateus Salazar, o aceite do desafio, que começamos a construir essa resposta", relembra Zimmermann.
A busca por respostas científicas para questões do dia a dia, conforme o professor, faz parte da premissa do Grupo de Pesquisa. "Tem muita engenharia, ciência, tecnologia embarcada em uma prancha. Nosso papel como Programa de Pós-graduação é entender alguns cenários, materiais e conseguir traduzir essas percepções em aplicações práticas. A gente consegue aplicar ciência nas mais diversas situações do dia a dia. Nosso grupo estuda desde pranchas de surf, tubulações, cultivos de células, materiais bem diferentes, mas todos com foco claro que é ciência aplicada. Queremos que as pessoas saiam e vejam que é possível fazer ciência nas situações comuns do nosso dia a dia", salienta.
Resultado positivo e que marca o início de uma trajetória
O desafio de encarar algo novo, de acordo com Mateus, foi superado com o apoio do Programa, do Grupo de Pesquisa e do orientador. "Percebemos que havia pouca literatura acadêmica sobre o assunto e isso por si só foi desafiador, mas contei com muito apoio na Universidade. Após a etapa inicial, evoluímos para conversas com profissionais da área, contato com um professor da Austrália, que hoje se tornou colaborador aqui, aspectos que foram tornando o caminho mais claro. Desta forma, ao final, estávamos muito mais certeiros e confiantes dos resultados da pesquisa", pontua.
Entre os legados do projeto, para Zimmermann, está a parceria internacional com o professor Marc in het Panhuis, da University of Wollongong, da Austrália, uma das referências no estudo do surf. "Nessa jornada conseguimos estipular parcerias, inclusive internacionais, e conseguimos nos posicionar enquanto referências regionais em termos de materiais aplicados às pranchas de surf com publicações de alto impacto, bastante referenciadas em termos de relevância", acrescenta.
Com a experiência, Mateus passou a enxergar a construção de pranchas por uma nova perspectiva. "No ambiente acadêmico temos mais possibilidades de explorar diferentes materiais. Foi quando percebi que é possível trazer aplicabilidade real à pesquisa", avalia o mestre, que pretende continuar o projeto ou contribuir para que outros pesquisadores deem sequência ao estudo.
O trabalho resultou na publicação de importantes artigos científicos acerca deste tema em jornais de alto impacto, com destaque para um dos mais reconhecidos na área de compósitos. Entre as publicações de grande relevância conquistadas pelos pesquisadores estão destaques nas revistas Composites Part B: Engineering e Journal of Applied Polymer Science.



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