Canal Içara

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21 de abril de 2019 - 13:20
Cotidiano »
Contra a saudade, sinta o amor
08/02/2019 às 08:27 | Simone Luiz Cândido
Sabe aqueles dias que em que a saudade bate forte, o coração vai ficando apertado. Parece que esses dias não irão passar. Essa saudade tem cheiros de perfumes, de comidas prediletas, cheiro de café coado na hora, tem as músicas favoritas que podemos ouvir, sorrimos ou chorarmos. Tudo vai depender de como estivermos nesse dia.

O fato é que nem sempre conseguimos aprender a viver com a saudade. Ela nos machuca muitas vezes. São tantos dias que acordo com saudades de ser chamada de filha de ouvir a voz do meu pai e da minha mãe. Com o passar do tempo à voz vai ficando mais distante, fica aquela impressão de ter ouvido, mas preciso me esforçar um pouco para conseguir ouvir com nitidez, afinal são 23 anos e nesse tempo não tínhamos tantas tecnologias ao nosso alcance.

Olhamos algumas fotos já amareladas pelo tempo, lembramo-nos de histórias contadas e recontadas por eles. A saudade é tamanha que nela cabem muitas pessoas, um amigo querido de apenas seis anos, companheiro das brincadeiras, cabelos quase ruivos, sardinhas no seu rosto. Joel seu nome. Lembro-me até hoje de seu jeito carinhoso de me tratar, das brincadeiras. A meningite o levou. Lembro-me do carinho que fiz em seus cabelos durante o velório. Era mais uma criança que partia para a eternidade.

Nessa época era comum crianças falecerem. Dessa vez foi um amigo tão próximo de mim. Passei o dia inteiro pulando o muro nos fundos de casa indo e voltando para casa dele. Era nossa despedida. Jamais poderia esquecer o meu amigo de infância. Tantos partiram. Alguns de maneira inesperada. Primos que nos deixaram por acidente. Tantas lembranças e de um futuro que não chegou a existir.

Quantas tias, primas, amigos que o câncer levou. Lutaram bravamente. Em alguns a fé se intensificava a cada dia. Era raro reclamarem mesmo em meio às dores que sofriam. Alguns acompanhei bem de perto. Visitava, fazia companhia. Outros de longe, rezando, intercedendo, pedindo ao bom Deus que ficassem bem, que não sofressem. Dias de dores e de aprendizado. Minha tia Eloisa, exemplo de fé de coragem, mulher guerreira, mesmo em meio as suas dores me deu muita força num dos momentos de muita dor.

Em novembro de 2015 acalentou meu coração, numa das horas mais tristes, quando nosso pequeno anjo (Léo Victor) partiu para junto do bom Deus. Foram apenas três meses de gestação junto de nós. Foi amado e gestado com muito amor. Cumpriu seu papel junto de nós. Nesse dia pude perceber que em muitos momentos guardamos nossa dor e vamos acalentar os outros. Assim aconteceu comigo.

Voltei daquele hospital um pouco curada pelo abraço que recebi. Eloisa me disse: "Mone, está tudo bem, vai passar, vai ficar tudo bem, vai ser feito o melhor para todos nós". Entendi, mais uma vez o que significa amor ao próximo. Recebi amor. Essa saudade se torna uma saudade boa, de me sentir amada e acolhida num dos dias mais tristes da minha vida. Era minha segunda perda. Em 2009 havia perdido outro bebê com três meses de gestação, mas na época o exame deu negativo, vim, a saber, somente no dia que perdi.

Muitas vezes não entendemos o motivo de acontecerem mudanças em nossas vidas. Foi o meu caso. Mudei de cidade depois de passar a vida inteira em Içara. Meu amado tio Toni, irmão do meu pai, morava aqui na região no Arroio do Silva. Nossa vinda para cá nos proporcionou muitas visitas, cafés junto com ele, foi um tempo maravilhoso. Pude dar tantos abraços, ter conversas maravilhosas. Há quatro meses o tio mudou de plano, foi repentino e inesperado. Agradeço a Deus, pois nos trouxe para mais perto, pude estar muitas vezes com ele.

Saudades de estar junto dele, mas com toda certeza estivemos todo o tempo possíveis juntos. Agradecer só nos faz bem. Nem sempre entendemos as mudanças, mas lá na frente nos vem o entendimento, saberemos que foi o melhor para nós. Palavras não descrevem o significado dessas saudades, mas tenho certeza de que todos que por mim passaram deixaram um pouco de si levaram um pouco de mim. Muitos dias são dolorosos, mas amor que recebi, os aprendizados me fazem ver o quanto fui feliz em ter estado com pessoas tão especiais escolhidas por Deus para marcarem minha existência.

Nos dias em que a saudade estiver forte, ouça as músicas favoritas, cozinhe as comidas favoritas, tire fotos, faça algo que sempre fizerem juntos. Sinta todo amor, pois esse levará para eternidade. Se a saudade for de alguém que está por aqui, não perca tempo, ligue, mande mensagem marque uma visita, diga eu te amo, sinto sua falta. Deixe suas marcas eternizarem naqueles que a vida lhe trouxe, são presentes especiais.
Simone Luiz Cândido é voluntária na causa adoção de crianças e adolescentes; já participou de três antologias com suas crônicas, além disso, ama escrever reflexões sobre a vida cotidiana, eternidade, amor e convivência.
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