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Economia | 13/07/2026 | 11:28

Andreia Limas: Para o bem da economia, é preciso olhar além da política

Muitos assuntos relacionados à saúde econômica estão virando munição eleitoral, com discussões que miram apenas a vitória nas urnas

Andreia Limas - andreia.limas@canalicara.com

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Nesses tempos nebulosos em que vivemos, é preciso cautela para abordar determinados assuntos, que sob o olhar deste ou daquele podem ganhar conotações completamente diferentes – e acabar bem longe da verdadeira intenção de quem suscitou o debate.

Digo isso porque em geral evito entrar na área política, embora já tenha falado neste espaço sobre a relação estreita dela com a economia, pois o propósito aqui é comentar os movimentos econômicos e como eles afetam nossa vida.

Mas há questões que realmente me incomodam e sobre as quais decidi falar. Não para defender este ou aquele lado, mas para mostrar como a saúde econômica/financeira está saindo de perspectiva, com as ações se voltando apenas às eleições de outubro.

Tarifaço
A começar pelo novo tarifaço sobre os produtos brasileiros, ameaçado pelo governo dos Estados Unidos, que pode entrar em vigor nesta semana.

O Brasil enfrenta o risco iminente de sofrer uma taxação combinada que pode chegar a 37,5% de tarifa adicional – 25% por "práticas comerciais desleais" e 12,5% por “falha em restringir a entrada de bens produzidos por trabalho análogo à escravidão”, além dos 10% da tarifa global temporária já instituída por Donald Trump.

Cortina de fumaça
Para começo de conversa, as alegações para a imposição de novas tarifas aos produtos brasileiros não passam de uma cortina de fumaça. Sim, porque ninguém acredita que os EUA estejam preocupados com práticas comerciais desleais se a política norte-americana se baseia justamente em medidas discutíveis (como o próprio tarifaço) para conseguir vantagens econômicas.

Se criticam o Pix como forma de pagamento em uma evidente manobra para beneficiar as grandes operadoras de cartão de crédito, que são empresas... estadunidenses!

E se pretendem atingir a China, seu principal adversário no mercado mundial, ao mencionar “bens produzidos por trabalho análogo à escravidão” em clara referência aos produtos chineses.

Não é segredo para ninguém as condições de trabalho (e de vida) de imigrantes nos Estados Unidos. Então, se o governo estivesse realmente preocupado com a força de trabalho, vocês não acham que deveria começar pela lição de casa?

Reação
Nem vou entrar no mérito de quem apoia ou não essa patacoada de Trump em território nacional. O que me preocupa realmente é que os pré-candidatos à presidência da República no Brasil parecem mais concentrados nos ganhos e perdas que essas medidas terão para eles nas urnas do que com o impacto de um novo tarifaço sobre a economia.

Reflexos
É preciso lembrar que diversas cadeias produtivas ainda sentem os efeitos do primeiro grande tarifaço do segundo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros, que vigorou principalmente entre 6 de agosto e 20 de novembro de 2025.

Nesse período, o governo do país implementou uma sobretaxa de 50% sobre uma série de itens. Em resposta, o governo brasileiro abriu novos mercados para escoar a produção, mas isso não se aplicou a todos os produtos e temos um exemplo bem próximo de nós: o mel.

Todos perdem
Este é um bom exemplo porque, primeiro, elimina a sensação de distância do problema, uma vez que os impactos recaem não só aos exportadores, mas também sobre as indústrias, os entrepostos e, principalmente, sobre os apicultores locais.

A situação se agrava porque o mercado interno não vai absorver a produção e não há outro mercado no exterior que possa substituir os EUA na compra do mel orgânico.

União de esforços
Se estivessem realmente preocupados com o futuro do país no mercado internacional, os candidatos à presidência estariam neste momento tomando medidas para evitar o tarifaço – e não apenas pensando no capital eleitoral. Quem sabe, unindo esforços com exportadores e entidades empresariais no sentido de evitar as novas tarifas?

Participação
Tanto em 2024 quanto em 2025, o mel natural foi o terceiro produto mais exportado por Içara, atrás apenas dos insumos para a indústria cerâmica e os reboques e semirreboques para veículos. Em 2024, o volume total negociado chegou a 3.642,87 toneladas, movimentando mais de US$ 9,6 milhões. Desse volume, 3.008,46 toneladas tiveram como destino os Estados Unidos, o equivalente a 82,58%. O restante foi para o Reino Unido, o Canadá e a Alemanha.

Baixa
Em 2025, quando foi aplicado o primeiro tarifaço, de 50% sobre o mel brasileiro importado pelos EUA, o volume exportado por Içara baixou para 2.575,83 toneladas, com valor gerado superior a US$ 8,85 milhões. Desse total, 2.338,71 toneladas foram para os Estados Unidos, correspondendo a 90,79%.

Alta
O setor só obteve alívio em fevereiro deste ano, quando uma decisão da Suprema Corte dos EUA derrubou a base legal utilizada por Trump (a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional) para aplicar o tarifaço, reduzindo a taxa de importação de volta para os patamares anteriores.

Com as vendas retomadas, no primeiro semestre deste ano o mel natural ocupou a segunda posição entre os produtos mais exportados por empresas içarenses. O volume negociado soma mais de US$ 6,5 milhões e 1.880,43 toneladas, com 1.529,31 toneladas indo para os EUA (81,33% do total).

De olho
Nesta semana, vamos ficar de olho na decisão do governo norte-americano sobre o novo tarifaço e, se for confirmado, na reação de quem pretende comandar o Brasil a partir de 2027.