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09 de agosto de 2020 - 19:56
Economia »
Ter deflação é ruim?
27/05/2020 às 14:28 | Andréia Limas
Andréia Limas
A geração nascida após o Plano Real se acostumou a ver uma inflação civilizada, mas nem sempre foi assim na economia brasileira. Antes da estabilização dos índices, o Brasil passou por inúmeros planos econômicos – alguns tão mirabolantes que deixaram sequelas sentidas até hoje, como Plano Collor e o histórico confisco da poupança –, na tentativa de controlar uma inflação galopante, que podia ser medida diariamente.

Tanto que a personagem principal era uma “maquininha”; não a de cartão de crédito, como temos hoje, mas a de remarcar preços. E acreditem: ela não parava, pois muitas vezes o preço da mercadoria à tarde já era diferente do praticado pela manhã.

Então, é muito difícil para as gerações pré-Plano Real imaginar que ter deflação, como o país registrou em abril, seja algo ruim para a economia. Mas pode ser, dependendo da conjuntura.

Pandemia
No momento atual, ter deflação não é um sinal positivo para a economia brasileira, pois mostra os primeiros indícios de um período de recessão que se aproxima. A queda no consumo, aliás, já é demonstrada pelos índices que vem sendo divulgados, tanto no volume de vendas como na intenção de compras. Com as incertezas geradas pela crise do coronavírus, o consumidor está receoso em comprar, restringindo as despesas apenas ao indispensável, pois não sabe que se continuará com renda mensal garantida. Isso quem ainda se mantém em atividade, porque muitos já perderam o emprego ou fecharam as portas.

Avaliação
“Era preferível estar com uma inflação controlada, dentro da meta estabelecida pelas autoridades monetárias. Não só o índice de inflação, mas outros indicadores mostram que devemos entrar em um período de recessão da economia como um todo. O ambiente de incerteza, junto com inflação baixa ou deflação, não é bom para o sistema econômico”, explica o economista e professor Thiago Fabris, coordenador do Observatório de Desenvolvimento Socioeconômico e de Inovação e coordenador adjunto do curso de Ciências Econômicas da Unesc.

Queda na demanda
Segundo ele, o sistema econômico como um todo vive um período sem pressões inflacionárias por razões relacionadas especificamente à queda da demanda. “Muito embora se observe liquidez, esses recursos não estão sendo direcionados para a parte do setor produtivo. Se for observar a capacidade instalada da indústria, construção, serviços, a produção está bem abaixo”, ressalta. “Estamos num período de volatilidade ainda, com incertezas do ponto de vista econômico, político e internacional, que devem impactar no cenário futuro. Pelos modelos que se apresentam, trabalhamos com queda na atividade produtiva entre 4 e 8% e aumento na taxa de desemprego, então não deve ter pressão no aumento de preços nos próximos meses”, acredita o economista.

Indicadores
Fabris ressalta que é preciso estar atento a outros indicadores, para se ter uma ideia sobre os impactos da pandemia na movimentação econômica, entre eles, confiança do empresariado, nível de investimento, comportamento de consumo, desempenho do Brasil no comércio exterior, taxas de juros, câmbio e política monetária. “Sabemos que o governo teve um aumento de gastos excessivo, necessário ao momento que estamos vivendo, mas sabemos que lá na frente ele vai ter menos poder de ação para a retomada da economia”, pondera.

Protagonista
Nesse contexto, mais uma vez, caberá ao empresariado o papel de protagonista na recuperação econômica. Na avaliação do consultor, alguns setores vão puxar essa retomada. “Principalmente pelo aumento da competitividade que estamos observando no setor exportador brasileiro, relacionados à parte de commodities. Esses setores e toda a sua cadeia produtiva devem se beneficiar na retomada da economia. Também podem contribuir a indústria e o setor de serviços”, enumera Fabris, salientando que acredita na recuperação gradativa da economia. “Mas para que haja investimentos da iniciativa privada, é necessário que o cenário aponte tendências de alta”, ressalva.

IPCA
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do Brasil e é calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentou queda nos dois últimos meses, justamente quando as restrições às atividades econômicas passaram a ser adotadas no país. Após registrar taxa de 0,21% em janeiro, o IPCA chegou a 0,25% em fevereiro, a mais alta nos quatro primeiros meses de 2020, puxada pelos reajustes praticados no início do ano letivo. Mesmo assim, foi o menor índice para o mês em 20 anos. Em março, a inflação desacelerou para 0,07%, o menor resultado para o mês desde o início do Plano Real, em julho de 1994. Puxada pela queda de 9,59% no preço dos combustíveis, o país teve deflação de 0,31% em abril, a menor variação mensal desde agosto de 1998, quando chegou a -0,51%. Com isso, no acumulado do ano, o IPCA registrou 0,22% e, nos últimos 12 meses, ficou em 2,40%.

Alimentação
Conforme o IBGE, a maior contribuição positiva no IPCA de abril (0,35%) veio do item Alimentação e Bebidas, que segue aumentando e acelerou em relação ao resultado do mês anterior (1,13%), com destaque para as altas da cebola (34,83%), da batata-inglesa (22,81%), do feijão-carioca (17,29%) e do leite longa vida (9,59%).
Andréia Medeiros Limas é jornalista, com experiência editorial nos jornais da Região Carbonífera, e assessoria de imprensa.
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